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Em tempos de incerteza, cooperação é estratégia
A competição é importante para o progresso, mas pode gerar um lado sombrio, se não aplicada na dose correta
O ano de 2026 começa marcado por tensões geopolíticas e um novo rearranjo da ordem global. O cenário se mostra pouco animador para quem acompanha a urgência de respostas coletivas aos grandes desafios da sociedade. De mudanças climáticas à redução da pobreza, há outras 15 agendas reunidas nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com desdobramentos e metas a serem alcançadas até 2030. A quatro anos desse prazo, os avanços estão para lá de insuficientes, podendo inclusive sofrer retrocessos com o aumento da produção de combustíveis fósseis.
Quanto mais competitivo o ambiente externo se torna, maior a necessidade de um movimento contrário: o da cooperação. Para o cofundador do Capitalismo Consciente, Raj Sisodia, o excesso de um polo cria a sua própria sombra. Daí a importância da flexibilidade deliberada para transitar entre os polos. Em outras palavras, a competição é importante para o progresso, mas, quando exacerbada, gera um lado sombrio. Assim, a cooperação surge como a força necessária para reequilibrá-la.
Cooperação será tema do próximo Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça, entre os dias 19 e 23 de janeiro. Sob o lema “Espírito de Diálogo”, o encontro buscará ouvir e integrar diferentes pontos de vista para ampliar perspectivas. As discussões irão se concentrar em cinco grandes desafios globais: cooperação em um mundo disputado, novas oportunidades de crescimento, investimento na força de trabalho, implementação responsável da inteligência artificial e de outras tecnologias emergentes, e construção de prosperidade dentro dos limites planetários.
Diante de desafios sistêmicos, interdependentes e que envolvem múltiplos atores, é necessário cooperar em diferentes níveis, do global ao local, e vice-versa. As soluções não são simples e nem centralizadas. Pressupõem modelos de governança participativos e adaptativos, capazes de lidar com ambientes de incerteza, integrar as diversas partes interessadas, ter mecanismos de resolução de conflitos, entre outros instrumentos. Isso passa pela atuação conjunta dos três setores da sociedade: o público, o privado e a sociedade civil organizada.
No nível local, ao invés de replicarmos (ainda que de forma inconsciente) as dinâmicas de competição do cenário global, precisamos promover a cooperação nas nossas áreas de influência. Do ponto de vista individual, é preciso ativar comportamentos que favoreçam a ação conjunta. Sob a ótica organizacional, significa entender que, embora as empresas atuem em mercados altamente competitivos, as principais soluções não estão dentro de seus muros, mas fora. Surgem da colaboração com clientes, fornecedores, parceiros e demais stakeholders. É aí que as inovações acontecem.
Como disse a antropóloga Margaret Mead, “nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas comprometidas e conscientes pode mudar o mundo. Na verdade, é a única forma pela qual o mundo já mudou”. Em um contexto global fragmentado, a cooperação deixa de ser um ideal e se mostra como uma estratégia de ação, capaz de gerar impacto real a partir dos espaços onde cada indivíduo e cada organização pode, de fato, influenciar. Afinal, queremos mudar o mundo, e para melhor.
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