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Empreender fora do Brasil exige método. Boa notícia: ser brasileiro pode ser um diferencial
Empreender fora do Brasil não começa no aeroporto. Começa no momento em que o empreendedor percebe que está jogando jogos diferentes em ambientes radicalmente distintos
Nos últimos anos, convivendo de perto com operações nos dois mercados, essa diferença ficou cada vez mais clara para mim.
Os Estados Unidos aparecem com frequência como destino natural para quem busca escala, previsibilidade e acesso a capital. Mesmo diante do cenário geopolítico atual, o país segue como uma das democracias mais longevas e estáveis do mundo, além de concentrar a maior economia global.
Mas internacionalizar não significa apenas atravessar uma fronteira. Significa mudar a forma de pensar, decidir e operar.
Costumo usar uma analogia simples. Empreender nos Estados Unidos é como entrar em uma piscina aquecida: a água está na temperatura certa, as regras são claras e o ambiente funciona. Isso não significa que seja fácil nadar ali dentro. A competição continua intensa e eficiência é apenas o ponto de partida.
Mas a diferença aparece quando lembramos de onde muitos empreendedores brasileiros vêm. Empreender no Brasil, muitas vezes, se parece mais com nadar com uma bola de chumbo presa ao pé. Em alguns dias, você chega para treinar e a piscina nem está cheia Em outros, a água está gelada, turva ou alguém mudou as regras no meio do treino.
Tributação complexa, insegurança jurídica, volatilidade econômica, juros elevados e mudanças frequentes no ambiente regulatório fazem parte da rotina de quem constrói negócios no país.
Esse ambiente cobra muito. Mas também forma muito. Quem empreende no Brasil aprende cedo a tomar decisão com pouca visibilidade, a ajustar estratégia rápido e a continuar operando mesmo quando o contexto não ajuda.
No final, o empreendedor brasileiro desenvolve algo difícil de replicar em ambientes mais estáveis: casca.
Curiosamente, é exatamente essa bagagem que muitas vezes vira vantagem quando esse empreendedor passa a operar em um ecossistema mais previsível.
O mercado americano oferece exatamente esse tipo de ambiente. Milhões de empresas são abertas todos os anos e os pequenos e médios negócios respondem por quase metade dos empregos do setor privado. Existe infraestrutura institucional, acesso a capital e previsibilidade regulatória.
Mas talvez o aspecto mais difícil de assimilar para quem chega seja a escala.
A economia da Flórida, por exemplo, já supera US$1,7 trilhão em PIB. Se fosse um país, estaria entre as maiores economias do mundo (e quase 80% do PIB Brasil).
Quando olhamos para Orlando, cidade frequentemente associada ao turismo brasileiro, o contraste também impressiona. A região metropolitana já ultrapassa US$200 bilhões em atividade econômica anual ou 30% maior que o PIB da cidade de São Paulo.
A diferença de magnitude é tão grande que leva tempo até o empreendedor realmente internalizar o que isso significa em termos de oportunidade.
Empreendedores estrangeiros têm papel relevante nesse cenário. Dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos mostram que, entre janeiro e maio de 2024, foram emitidos cerca de 4,2 mil vistos L para brasileiros, categoria voltada à transferência de executivos e abertura de operações no país.
Esse movimento faz parte de um fenômeno maior. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, quase 5 milhões de brasileiros vivem no exterior, sendo aproximadamente 45% nos Estados Unidos.
Uma parte crescente desse grupo não apenas trabalha fora, mas cria empresas, investe e constrói operações próprias.
No mercado de capitais, o movimento também é visível. Desde 2018, empresas como StoneCo, PagSeguro, XP, Nubank, VTEX, Afya e Inter passaram a negociar ações nas bolsas americanas.
Ao mesmo tempo, há uma nova geração de empresas fundadas por brasileiros com presença global, como CloudWalk, Wildlife Studios, EBANX e Creditas. Mesmo sem abrir capital nos Estados Unidos, elas operam com acesso a capital internacional e ambição global.
O ponto central é que esse movimento não é casual. Empreender fora do Brasil exige método. Exige leitura de contexto, governança, adaptação cultural e capacidade técnica.
Mas existe uma boa notícia para o empreendedor brasileiro. Muitos de nós fomos treinados em um ambiente onde sobreviver já exige competências raras. A piscina aquecida ajudam, mas quem desenvolveu casca em águas turbulentas normalmente entende melhor o valor de cada braçada.
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