O Decreto nº 12.955/2026, no contexto da Reforma Tributária do consumo, regulamenta a CBS e marca uma nova etapa na implementação do novo sistema tributário brasileiro
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Reforma Tributária: Mais do que rever a TI, empresas vão mudar estratégias comerciais
Split payment vem para acertar o modelo tributário e favorecer quem paga imposto em dia
A tecnologia será a espinha dorsal da implementação da reforma tributária brasileira. Essa foi a principal conclusão do Painel 3 do Fórum TIC na Reforma Tributária, que reuniu representantes do governo, da Receita Federal, do Serpro e do setor privado para discutir os desafios e oportunidades da nova arquitetura digital que dará suporte ao IVA Dual e ao sistema de split payment em tempo real.
O economista Bernard Appy afirmou que o modelo brasileiro “seria impossível sem documento fiscal eletrônico” e destacou que a reforma abre espaço para uma transformação sem precedentes na gestão de dados públicos e privados.
Segundo Appy, a nova estrutura permitirá ao poder público acompanhar praticamente em tempo real as transações formais da economia brasileira. “Teremos o PIB diário do Brasil e uma base de dados estatísticos fabulosa”, afirmou. Ele destacou ainda que muitas pesquisas atualmente feitas por amostragem poderão ser substituídas por informações completas geradas pelo próprio sistema tributário digital.
No setor privado, o impacto também será profundo. De acordo com Appy, empresas passarão a contar com uma base consolidada de informações de vendas e aquisições, exigindo uma evolução dos sistemas de gestão empresarial (ERPs). “As empresas terão um poder muito grande de pensar estratégia a partir desses dados”, disse.
Para Robson Lima, gerente nacional do Projeto Estratégico da Reforma Tributária do Serpro, a infraestrutura tecnológica brasileira é um diferencial competitivo. “Estamos entre os seis maiores digitais da OCDE. O digital é o caminho não apenas para a questão tributária, mas para a geração de dados”, afirmou. Segundo ele, a reforma representa “o maior projeto” já conduzido na área pública de tecnologia no país.
A comparação da reforma com o impacto do Pix foi feita por Norberto Maraschin, vice-presidente de negócios da Positivo Tecnologia. “A reforma representa para os impostos o que o Pix representou para os pagamentos”, declarou. Para ele, o novo modelo ajudará a reduzir o chamado “custo Brasil” e promoverá um amplo processo de adaptação cultural e tecnológica nas empresas.
Já Marcos Hübner Flores, auditor fiscal da Receita Federal, ressaltou que o Brasil reúne condições únicas para implementar o novo sistema. “Só o Brasil combina toda essa estrutura tecnológica no governo, no sistema financeiro e na Receita”, afirmou. Segundo Flores, há dez anos a implantação seria inviável, mas o amadurecimento das instituições e da infraestrutura digital tornou o projeto possível.
Um dos temas centrais do painel foi o funcionamento do split payment, mecanismo que separa automaticamente o valor do tributo no momento da transação comercial. Flores explicou que o sistema cria um ambiente de concorrência mais equilibrado, ao reduzir riscos de inadimplência e fraudes. “O split quita o débito de quem deve e garante o crédito de quem cobra”, resumiu.
Segundo Lima, o modelo brasileiro prevê três modalidades de split payment — superinteligente, inteligente e simplificado — já considerando contingências tecnológicas. A proposta, de acordo com ele, é proteger o fluxo de caixa das empresas e garantir uma integração direta entre arranjos de pagamento, instituições financeiras e os cofres públicos.
Appy destacou que o modelo brasileiro poderá se tornar referência internacional. “O split só funciona porque temos um sistema de pagamentos avançado. Pode ser que exportemos esse modelo”, afirmou.
Período de adaptação
Os debatedores alertaram que a adaptação das empresas vai além da adequação técnica dos sistemas fiscais. Segundo Appy, as companhias precisarão revisar preços, contratos, margens e estratégias comerciais considerando a lógica de recuperação de créditos do novo IVA Dual.
“A empresa precisa entender como ficará sua margem depois da reforma”, afirmou. Ele lembrou que a transição será gradual até 2033, mas destacou que a pressão de adaptação já começa agora.
Maraschin reforçou que a competitividade dependerá diretamente da capacidade tecnológica das empresas. “Quem tiver melhor gestão de créditos e mais eficiência ganhará market share”, afirmou. Para ele, muitas empresas ainda tentam preservar sistemas legados incompatíveis com a nova lógica tributária.
O volume de dados que será movimentado pela reforma também chamou atenção. Lima revelou que o sistema deverá processar cerca de 100 bilhões de documentos fiscais por ano, gerando até 1 trilhão de transações anuais armazenadas em bancos de dados públicos. “Isso não seria possível sem nuvem soberana, duplicação de sites e uma nova infraestrutura tecnológica”, afirmou. Os participantes do painel concordaram que a combinação entre reforma tributária, digitalização e inteligência de dados pode colocar o Brasil entre os países mais avançados do mundo em administração tributária digital.
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